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15/04/2008 00:29

SAUDADES DE "SAUDADE..."

Quem viu, ficou querendo ver de novo. Quem não viu, não sabe o que perdeu, ficou na saudade. Foi quinta passada, 10/04, no Teatro do Centro de Cultura Amélio Amorim: a abertura da 1a. etapa do Palco Giratório (projeto da Rede SESC de intercâmbio e difusão das artes cênicas), com a maravilhosa apresentação do espetáculo SAUDADE EM TERRAS D'ÁGUA, da Cia. Dos a Deux. SAUDADE... conta a "história de uma família que vive numa palafita perdida no meio da imensidão do mar. Ilhada e sem contato com o continente, ela desenvolve uma maneira curiosa de viver.", como se lê no programa da peça. São três personagens que integram a família: uma velha mãe(magnífica interpretação de André Curti)e seu filho (o ágil Artur Ribeiro), junto com a mulher deste (a expressiva Lakko Okino). A peça começa com a velha sozinha, em cima da palafita, e logo em seguida entra o filho atravessando o caminho de mar num pequeno barco (representado por três varas em formato de vela), para depois o filho ficar em cena a sós, enquanto a mãe sai navegando pelo mar(que funciona como uma bela construção cenográfica, a partir do uso de plásticos transparentes). A mãe volta com uma jovem, que será a noiva do seu filho. As ações se dinamizam e, vencida a timidez inicial entre os noivos, logo eles se acertam e partem para a bela cena da lua-de-mel, passada dentro da elástica saia da velha mãe. É um dos primeiros momentos altos do espetáculo. A essa altura, é bom que se diga que nenhuma palavra é pronunciada pelos atores durante toda a encenação. Quando muito, temos alguns poucos sons sem significado aparente e os gritos histéricos da noiva quando está parindo seu filho. As falas são substituídas pelos gestos milimetricamente compassados de seus intépretes, seguidores de "uma identidade artística designada como teatro gestual." Eu poderia continuar falando de outros belos momentos (como o "desaparecimento" do mar, por exemplo), e da excelência da trilha sonora original, ou das influências orientais na pesquisa gestual. Mas prefiro apenas traçar o comentário geral de que esse trabalho da Cia. Dos a Deux mostra como o teatro contemporâneo está em processo de constante renovação, pesquisando novas formas de encenação que procurem atender às novas realidades do século XXI, bem como a seus espectadores, cujo olhar vem sendo constantemente reconfigurado pelas atuais tecnologias. Para não perder cada vez mais público para a TV, o cinema e a internet, o Teatro precisa abrir caminhos de renovação do fazer artístico. Precisamos, é o que eu sinto, fazer como as artes plásticas, cujas tendências contemporâneas retiraram os trabalhos das paredes e pedestais para apresentá-los ao público em forma de instalações e objetos interativos. Precisamos sair dos nossos pedestais para ganhar o olhar direto e interrogativo das platéias. Mesmo que seja no palco italiano. Mas, acima de tudo, precisamos criar novos palcos, que reforcem os significados do que pretendemos discutir com os espectadores. E, como ficou bem demonstrado pelo grupo (formado por dois brasileiros e outros residentes de Paris, que há 11 anos atuam na Europa), podemos discutir qualquer assunto sem necessariamente usar de palavras. O gesto, bem estudado e poeticamente construído, pode valer por mil. E eu não tenho mais palavras para elogiar o espetáculo e a Cia., que ainda nos brindou com dois dias de workshop sobre Escritura Dramática. Parabéns ao SESC pela manutenção desse belo projeto chamado Palco Giratório! E eles ainda continuam na Bahia: de 11 a 21 de abril, o grupo fará uma residência no Teatro SESC-SENAC Pelourinho, em Salvador, com apresentações (SAUDADE... e AUX PIEDS DE LA LETTRE) e atividades formativas (oficinas e debate sobre o Teatro Gestual).
Muitos conceitos que eles desenvolvem também fazem parte das minhas pesquisas sobre interpretação teatral, e espero logo em breve estar aplicando tais conceitos dentro do meu projeto de Laboratório de Estudos Teatrais, a ser desenvolvido no CUCA com atores egressos de oficinas e outros cursos de formação. Renovar-se, sempre, é como navegar: é preciso.
enviada por publio






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