|
19/02/2008 16:04
DE VOLTA AO CINEMA
Amantes do cinema, a temporada está em alta. Principalmente depois da surpresa que foi a vitória de TROPA DE ELITE no Festival de Berlim, encerrado no último sábado, 16/02. Surpresa nem tanto pela conquista em si, mas pela concessão do Urso de Ouro por parte de um júri que, assim como toda a platéia presente na sessão de exibição para a imprensa, ficou meio que perplexa, sem reagir nem com vaias nem com aplausos, segundo as agências internacionais de notícia. Para não falar da crítica severa que o filme brasileiro recebeu da VARIETY, uma das publicações mais respeitadas do jornalismo cultural nos EUA. Segundo o crítico da revista, o roteiro de THE ELITE SQUAD tem intenções que beiram o neofascismo, fazendo a apologia da violência policial contra o tráfico, ao colocá-los na condição de heróis populares. Bom, parece que a polícia carioca não concorda muito com essa opinião, tanto que tentou por várias vezes impedir a exibição do filme nas telas do Rio. Concordo com a parte da crítica que vê falhas na interpretação excessivamente naturalista do narrador, que em muitos momentos compromete o clímax das cenas, tirando a tensão necessária para o andamento acelerado das situações criadas pelo roteiro (baseado em relato verídico, publicado sob o título de A ELITE DA TROPA). É o que se vê em boa parte da teledramaturgia brasileira: atores e projetos de atores incorporando uma atitude naturalisticamente "relax" em suas interpretações, na busca de imitar a realidade ao máximo. Às vezes em TV isso fica risivelmente interessante. Já no cinema, pode comprometer toda uma série de boas qualidades geradas pela direção e sua equipe. A ponto de o crítico norte-americano confundir a voz do narrador com a própria voz do diretor. O que, a meu ver, não é justo, pois, para mim, o olhar do diretor não apóia as idéias e ideais do narrador (o Capitão Nascimento do global Wagner Moura) e busca construir uma estética documental para uma obra de ficção que tematiza a realidade das favelas cariocas. Bom, seja como for, com suas poucas falhas e suas grandes qualidades, parabéns a esse fenômeno que se tornou o TROPA DE ELITE, de José Padilha. Que já tinha sido notícia internacional pelos números de venda atingidos no mercado pirata, lançado alguns meses antes da primeira exibição oficial. Eu mesmo assisti à versão pirata, emprestada por um amigo, e senti de cara que o fenômeno seguia muito da trilha aberta por CIDADE DE DEUS, tanto em sua temática quanto em sua estética. O próprio José Padilha admite que Fernando Meireles e sua trupe deram uma reviravolta no cine-mercado brasileiro, atingindo grande projeção internacional. E, pra criar um link, vale a pena lembrar que CITY OF GOD foi, até hoje, a única produção nacional a ter quatro indicações da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Terminou Berlim, vem aí a 80a. entrega do Oscar, para celebrar mais uma vez a hegemonia de produção e distribuição da indústria cinematográfica norte-americana. Pois não é só no Brasil que a maioria das salas são destinadas aos lançamentos made in USA. O império sempre ataca. Mas o mundo dá muitas voltas e a cerimônia de 2008 será marcada pela emergência de dois fatos recentes que mexeram com as estruturas econômicas e sentimentais da área. O primeiro é a vigorosa greve dos roteiristas de cinema e televisão, que tem deixado os poderosos executivos dos estúdios de cabelo em pé (isso para os que ainda têm cabelo). Apoiada por diretores, atores e atrizes, a greve tem dado o que falar na terras do Tio Sam, e certamente será alvo das costumeiras piadinhas do mestre de cerimônias. Já o segundo fato não tem nada de divertido: a talvez explicável morte de Heath Ledger, que foi elevado à categoria de super-astro depois de sua atuação em BROKEBACK MOUNTAIN, o que lhe valeu sua primeira indicação e também críticas que comparavam sua interpretação às de Marlon Brando e James Dean. Todas, diga-se de passagem, baseadas no estilo naturalista de Stanislavski (à moda americana, é claro; o Actor's Studio que o diga). Minha teoria é que, nessa onda de interpretação hiper-naturalista, levando-se em conta que a última atuação de Ledger foi em O CAVALEIRO DAS TREVAS (ainda inédito), no papel do Coringa, é que ele levou muito a sério o papel do palhaço criminoso, atormentado por uma tragédia pessoal (numa perseguição policial, o Coringa acaba sendo atingido por um produto químico que deforma o seu sorriso, que fica para sempre petrificado; e isso foi muito antes do botox...rss). Daí, sem conseguir se livrar do personagem após a conclusão das filmagens (o que não é muito raro para intérpretes naturalistas: alguns, inclusive, carregam o mesmo personagem para o resto de suas vidas), Heath entrou num estado de superexcitação tamanho que o impedia até mesmo de dormir. Sem conseguir resolver o problema por outras vias, recorreu ao uso de tranquilizantes para recuperar o sono. Mas acabou tomando uma dose superexcessiva, que interrompeu a promissora carreira hollywoodiana desse talentoso ator australiano no vigor dos seus 28 anos de idade. É difícil pensar que não se faça qualquer menção ao assunto durante a cerimônia de entrega dos prêmios, que não se lamente a prematura partida desse jovem ator, capaz de emocionar a todos como Ennis Del Mar, um cowboy fechadão que se apaixona por um colega de serviço, quando os dois são enviados para cuidar de um rebanho de ovelhas na tal montanha das costas quebradas e passam semanas a sós. Filme comovente, aliás, finamente conduzido por Ang Lee, que, contrariando as expectativas, não levou a estatueta principal. Mas alguém aí lembra de CRASH como lembra de BROKEBACK? Já tratei de adquirir minha cópia em DVD. E não é pirata, não, tá?
enviada por publio
Feed: Seja avisado quando este blog for atualizado :: (O que é isso?)
|