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11/05/2008 18:31

MAIS UM POEMA DE TROVARES (PRO MÊS QUE PASSOU)

SONHO DE ABRIL

acorda, gigante anil
prepara tua raça
pra enfrentar com graça
o sonho de abril
Atlas, levanta-te!

acorda, elefante branco
aparelha o povo
pra lidar com o novo
abre o peito ao brio
Atlas, adianta-te!

desperta, amante
que a Alba surgiu


enviada por publio



15/04/2008 00:29

SAUDADES DE "SAUDADE..."

Quem viu, ficou querendo ver de novo. Quem não viu, não sabe o que perdeu, ficou na saudade. Foi quinta passada, 10/04, no Teatro do Centro de Cultura Amélio Amorim: a abertura da 1a. etapa do Palco Giratório (projeto da Rede SESC de intercâmbio e difusão das artes cênicas), com a maravilhosa apresentação do espetáculo SAUDADE EM TERRAS D'ÁGUA, da Cia. Dos a Deux. SAUDADE... conta a "história de uma família que vive numa palafita perdida no meio da imensidão do mar. Ilhada e sem contato com o continente, ela desenvolve uma maneira curiosa de viver.", como se lê no programa da peça. São três personagens que integram a família: uma velha mãe(magnífica interpretação de André Curti)e seu filho (o ágil Artur Ribeiro), junto com a mulher deste (a expressiva Lakko Okino). A peça começa com a velha sozinha, em cima da palafita, e logo em seguida entra o filho atravessando o caminho de mar num pequeno barco (representado por três varas em formato de vela), para depois o filho ficar em cena a sós, enquanto a mãe sai navegando pelo mar(que funciona como uma bela construção cenográfica, a partir do uso de plásticos transparentes). A mãe volta com uma jovem, que será a noiva do seu filho. As ações se dinamizam e, vencida a timidez inicial entre os noivos, logo eles se acertam e partem para a bela cena da lua-de-mel, passada dentro da elástica saia da velha mãe. É um dos primeiros momentos altos do espetáculo. A essa altura, é bom que se diga que nenhuma palavra é pronunciada pelos atores durante toda a encenação. Quando muito, temos alguns poucos sons sem significado aparente e os gritos histéricos da noiva quando está parindo seu filho. As falas são substituídas pelos gestos milimetricamente compassados de seus intépretes, seguidores de "uma identidade artística designada como teatro gestual." Eu poderia continuar falando de outros belos momentos (como o "desaparecimento" do mar, por exemplo), e da excelência da trilha sonora original, ou das influências orientais na pesquisa gestual. Mas prefiro apenas traçar o comentário geral de que esse trabalho da Cia. Dos a Deux mostra como o teatro contemporâneo está em processo de constante renovação, pesquisando novas formas de encenação que procurem atender às novas realidades do século XXI, bem como a seus espectadores, cujo olhar vem sendo constantemente reconfigurado pelas atuais tecnologias. Para não perder cada vez mais público para a TV, o cinema e a internet, o Teatro precisa abrir caminhos de renovação do fazer artístico. Precisamos, é o que eu sinto, fazer como as artes plásticas, cujas tendências contemporâneas retiraram os trabalhos das paredes e pedestais para apresentá-los ao público em forma de instalações e objetos interativos. Precisamos sair dos nossos pedestais para ganhar o olhar direto e interrogativo das platéias. Mesmo que seja no palco italiano. Mas, acima de tudo, precisamos criar novos palcos, que reforcem os significados do que pretendemos discutir com os espectadores. E, como ficou bem demonstrado pelo grupo (formado por dois brasileiros e outros residentes de Paris, que há 11 anos atuam na Europa), podemos discutir qualquer assunto sem necessariamente usar de palavras. O gesto, bem estudado e poeticamente construído, pode valer por mil. E eu não tenho mais palavras para elogiar o espetáculo e a Cia., que ainda nos brindou com dois dias de workshop sobre Escritura Dramática. Parabéns ao SESC pela manutenção desse belo projeto chamado Palco Giratório! E eles ainda continuam na Bahia: de 11 a 21 de abril, o grupo fará uma residência no Teatro SESC-SENAC Pelourinho, em Salvador, com apresentações (SAUDADE... e AUX PIEDS DE LA LETTRE) e atividades formativas (oficinas e debate sobre o Teatro Gestual).
Muitos conceitos que eles desenvolvem também fazem parte das minhas pesquisas sobre interpretação teatral, e espero logo em breve estar aplicando tais conceitos dentro do meu projeto de Laboratório de Estudos Teatrais, a ser desenvolvido no CUCA com atores egressos de oficinas e outros cursos de formação. Renovar-se, sempre, é como navegar: é preciso.
enviada por publio



15/03/2008 11:06

DIAS DE POESIA

Ontem foi dia da poesia/Era pra eu fazer um poema/Mas não pude encontrar um tema/Hoje, talvez, ache alegria!

Algumas datas valem a pena ser lembradas, principalmente aquelas sem grande apelo comercial, como é o caso do Dia da Poesia, 14 de março. Afinal, nunca é demais relembrar poetas como Castro Alves, que nasceu nessa data e motivou a criação do dia comemorativo. Aliás, ele e tantos outros cultores dessa arte literária que tira sua matéria-prima do coração de homens e mulheres deveriam ser lembrados todo dia. Todo dia deveria ser publicado um poema em todos os jornais. Em todos os canais de TV, pelo menos um poema deveria ser recitado por seus atores, todo dia. E, principalmente, nas instituições de ensino, para enriquecer a alma de nossos estudantes, pra fazer um Brasil melhor. Pois, em meio ao massacre midiático que vivemos, com a massificação das rádios e outros meios de comunicação, com a maioria dos métodos de educação já ultrapassados, carecemos urgentemente da ajuda dos mestres da palavra. E temos muitos. Eu mesmo vivo numa cidade que segue uma bela tradição poética, com nomes marcantes desde o século XIX. Mas também onde pouca gente sabe muito mais sobre Aloísio Rezende e Georgina Erismann, por exemplo, além do fato de os dois designarem nomes de ruas. Falando em ruas de Feira de Santana, além desses dois poetas locais, temos também homenagens importantes a Castro Alves e a Manuel Bandeira. Outros que também mereceriam tal homenagem (muito mais que ex ou atuais políticos) são Eurico Alves e Godofredo Filho, grandes representantes do modernismo baiano, com projeção nacional. O último, inclusive, era muito querido de Jorge Amado e chegou a ser citado em seus romances. Agora, vá perguntar a um aluno de escola pública, ou mesmo de particular, se ele sabe quem foi Godofredo Filho. Sobre Jorge Amado, possivelmente, ele vai saber falar. Será porque a prosa tem mais valor para a nossa sociedade? E porque ainda se pensa na poesia exclusivamente como forma de arroubos românticos de um amante apaixonado por sua amada? Poesia não é só isso, pra quem não sabe. Inclusive, a poesia não está presente apenas na literatura. Podemos ver poesia no cinema, no teatro, na pintura, e em tudo que nos cerca. Para isso é preciso apenas desenvolver um olhar poético. Apenas é modo de dizer. Pois é um exercício diário achar lirismo em um mundo que gira em torno das relações econômicas, onde todos querem "vencer a concorrência". Que a lira dos deuses pagãos continue me dando forças para que eu possa influenciar todos a minha volta com a urgência de ver o mundo através do olho mágico da poesia. Evoé!
enviada por publio



19/02/2008 16:04

DE VOLTA AO CINEMA

Amantes do cinema, a temporada está em alta. Principalmente depois da surpresa que foi a vitória de TROPA DE ELITE no Festival de Berlim, encerrado no último sábado, 16/02. Surpresa nem tanto pela conquista em si, mas pela concessão do Urso de Ouro por parte de um júri que, assim como toda a platéia presente na sessão de exibição para a imprensa, ficou meio que perplexa, sem reagir nem com vaias nem com aplausos, segundo as agências internacionais de notícia. Para não falar da crítica severa que o filme brasileiro recebeu da VARIETY, uma das publicações mais respeitadas do jornalismo cultural nos EUA. Segundo o crítico da revista, o roteiro de THE ELITE SQUAD tem intenções que beiram o neofascismo, fazendo a apologia da violência policial contra o tráfico, ao colocá-los na condição de heróis populares. Bom, parece que a polícia carioca não concorda muito com essa opinião, tanto que tentou por várias vezes impedir a exibição do filme nas telas do Rio. Concordo com a parte da crítica que vê falhas na interpretação excessivamente naturalista do narrador, que em muitos momentos compromete o clímax das cenas, tirando a tensão necessária para o andamento acelerado das situações criadas pelo roteiro (baseado em relato verídico, publicado sob o título de A ELITE DA TROPA). É o que se vê em boa parte da teledramaturgia brasileira: atores e projetos de atores incorporando uma atitude naturalisticamente "relax" em suas interpretações, na busca de imitar a realidade ao máximo. Às vezes em TV isso fica risivelmente interessante. Já no cinema, pode comprometer toda uma série de boas qualidades geradas pela direção e sua equipe. A ponto de o crítico norte-americano confundir a voz do narrador com a própria voz do diretor. O que, a meu ver, não é justo, pois, para mim, o olhar do diretor não apóia as idéias e ideais do narrador (o Capitão Nascimento do global Wagner Moura) e busca construir uma estética documental para uma obra de ficção que tematiza a realidade das favelas cariocas. Bom, seja como for, com suas poucas falhas e suas grandes qualidades, parabéns a esse fenômeno que se tornou o TROPA DE ELITE, de José Padilha. Que já tinha sido notícia internacional pelos números de venda atingidos no mercado pirata, lançado alguns meses antes da primeira exibição oficial. Eu mesmo assisti à versão pirata, emprestada por um amigo, e senti de cara que o fenômeno seguia muito da trilha aberta por CIDADE DE DEUS, tanto em sua temática quanto em sua estética. O próprio José Padilha admite que Fernando Meireles e sua trupe deram uma reviravolta no cine-mercado brasileiro, atingindo grande projeção internacional. E, pra criar um link, vale a pena lembrar que CITY OF GOD foi, até hoje, a única produção nacional a ter quatro indicações da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Terminou Berlim, vem aí a 80a. entrega do Oscar, para celebrar mais uma vez a hegemonia de produção e distribuição da indústria cinematográfica norte-americana. Pois não é só no Brasil que a maioria das salas são destinadas aos lançamentos made in USA. O império sempre ataca. Mas o mundo dá muitas voltas e a cerimônia de 2008 será marcada pela emergência de dois fatos recentes que mexeram com as estruturas econômicas e sentimentais da área. O primeiro é a vigorosa greve dos roteiristas de cinema e televisão, que tem deixado os poderosos executivos dos estúdios de cabelo em pé (isso para os que ainda têm cabelo). Apoiada por diretores, atores e atrizes, a greve tem dado o que falar na terras do Tio Sam, e certamente será alvo das costumeiras piadinhas do mestre de cerimônias. Já o segundo fato não tem nada de divertido: a talvez explicável morte de Heath Ledger, que foi elevado à categoria de super-astro depois de sua atuação em BROKEBACK MOUNTAIN, o que lhe valeu sua primeira indicação e também críticas que comparavam sua interpretação às de Marlon Brando e James Dean. Todas, diga-se de passagem, baseadas no estilo naturalista de Stanislavski (à moda americana, é claro; o Actor's Studio que o diga). Minha teoria é que, nessa onda de interpretação hiper-naturalista, levando-se em conta que a última atuação de Ledger foi em O CAVALEIRO DAS TREVAS (ainda inédito), no papel do Coringa, é que ele levou muito a sério o papel do palhaço criminoso, atormentado por uma tragédia pessoal (numa perseguição policial, o Coringa acaba sendo atingido por um produto químico que deforma o seu sorriso, que fica para sempre petrificado; e isso foi muito antes do botox...rss). Daí, sem conseguir se livrar do personagem após a conclusão das filmagens (o que não é muito raro para intérpretes naturalistas: alguns, inclusive, carregam o mesmo personagem para o resto de suas vidas), Heath entrou num estado de superexcitação tamanho que o impedia até mesmo de dormir. Sem conseguir resolver o problema por outras vias, recorreu ao uso de tranquilizantes para recuperar o sono. Mas acabou tomando uma dose superexcessiva, que interrompeu a promissora carreira hollywoodiana desse talentoso ator australiano no vigor dos seus 28 anos de idade. É difícil pensar que não se faça qualquer menção ao assunto durante a cerimônia de entrega dos prêmios, que não se lamente a prematura partida desse jovem ator, capaz de emocionar a todos como Ennis Del Mar, um cowboy fechadão que se apaixona por um colega de serviço, quando os dois são enviados para cuidar de um rebanho de ovelhas na tal montanha das costas quebradas e passam semanas a sós. Filme comovente, aliás, finamente conduzido por Ang Lee, que, contrariando as expectativas, não levou a estatueta principal. Mas alguém aí lembra de CRASH como lembra de BROKEBACK? Já tratei de adquirir minha cópia em DVD. E não é pirata, não, tá?
enviada por publio






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